A Galeria Adriana Varejão, inaugurada em março de 2008, é um espaço concebido para receber as obras da artista, que participou da conceituação do projeto arquitetônico. O edifício, de autoria do arquiteto paulistano Rodrigo Cerviño Lopez, tem 477m² e cria um percurso que começa num caminho por entre um espelho d'água. A primeira sensação que o grupo teve ao chegar na galeria foi de isolamento e amplitude, uma vez que antes estávamos em um lugar com densa vegetação. Ao avistar o prédio, temos um ambiente mais aberto ao seu redor, apenas rodeado por um jardim de porte pequeno. Isso deu destaque à galeria, causando curiosidade nos visitantes.
A primeira parada se faz em um espaço no centro desse espelho d'água, onde encontramos sua primeira, Panacea Phantástica, um bloco revestido com azulejos que apresentam tipos de plantas alucinógenas. A obra (mais utilizada como um lugar de assento), em relação com o espaço aberto ao redor, gera a sensação de contemplação, porém essa podendo ocorrer de diversas formas, "de acordo com o seu psicológico". Além disso, a fachada com toda a sua geometrização e solidez em grande escala, somado ao caminho que nos direciona para dentro do pavilhão, gera expectativas.
fachada da galeria
Entrando na galeria, sentimos uma relativa quebra de expectativa. Talvez se formulassem uma entrada mais discreta, com menos passagens de luz, a curiosidade teria permanecido com o caminho até a próxima obra da artista, Linda do Rosário. Contudo, os traçados retos e bem direcionados evitaram a dispersão da obra, proporcionando um direcionamento maior do olhar para a mesma. Sobre a obra, podemos dizer grosseiramente "uma parede viva". A artista utiliza-se da relação entre perspectivas e sentimentos: cor, profundidade, espaço, verossimilhança; violência, crueza, agressividade, invasão. A centralidade da obra no ambiente seco foi fundamental para a maior interatividade das pessoas com a mesma. Duas perguntas:
- os produtos do homem têm vida como seu criador?
- seríamos nós como as nossas criações? Apenas uma aparência fria, de concreto pro fora, com um interior pulsante que nos preenche das mais variadas formas?
Ainda no primeiro andar, antes de prosseguirmos, nos deparamos com o cenário ilusionista. O Colecionador é a maior pintura da série Saunas da artista, e faz uso de uma palheta quase monocromática para criar um labirinto interior idealizado. Com seus jogos de luz e sombras, a pintura evoca espaços de lazer e sensualidade e reflete a arquitetura do pavilhão, propondo uma continuidade virtual do espaço.
obra Linda do Rosário (2004)
Já no segundo pavimento, a obra principal toma conta da periferia de todo o espaço de uma salão. A obra Celacanto provoca maremoto (2004-2008) vale-se do barroco e da azulejaria portuguesa como principais referencias históricas. A pintura, o trabalho com a tela sobre o gesso (aparentam grandes azulejos quebrados), as cores, as figuras e as formas nos transmitem duas sensações: a de calmaria, representada em um lado da sala pelas linhas retas da pintura, e a de tormenta, nas outras três paredes do ambiente, com os movimentos circulares e intensos. A percepção inicial foi de estarmos imersos no oceano. Em seguida, notamos que a posição da escada (no centro do salão) e dos bancos em seu redor (com vista ampla para a obra) nos remetia a sensação de estarmos dentro de um barco, em sua parte inferior, sentindo a tormenta daquele oceano. Talvez se a escada não tivesse sido posicionada de tal maneira, trazendo então os visitantes de um dos cantos do salão a sensação não seria a mesma, nem a percepção da obra. Contudo, um jogo de luz poderia ter sido pensado, com maior direcionamento dos focos, relacionando-se com o ritmo da pintura.
obra Celacanto Provoca Maremoto (2004-2008)
Por fim, através de uma saída lateral, uma porta (talvez se não tivesse a porta, mas panos...)que dá para um corredor apertado que nos leva para o terceiro e último andar da galeria. O corredor imerso em paredes altas, que nos permitem apenas a visão do céu, nos propôs a ideia de estarmos saindo de algo profundo e de estarmos sendo guiados a um espaço superior com maiores possibilidades - é comum a primeira coisa que queremos ver após situações de confinamento ser o céu, a amplidão do espaço, a luminosidade. A medida que percorremos e subimos, começamos a ver novamente a mata densa circundando o espaço do pavilhão. Situados, por último, em um pátio suspenso, com um banco continuo de concreto revestido com azulejos com figuras de pássaros. A harmonia entre o ambiente do pavilhão e do ambiente externo do Inhotim, sugere um espaço de repouso e admiração, (apenas do céu e das copas das árvores). O canto dos pássaros parece ser o canto daqueles pintados no azulejo, e nos vimos no mesmo nível que eles, em relação à superfície.
banco de azulejos de passarinhos
Pensando na trajetória inversa, chegando por exemplo pela ponte que conecta o arredor do pavilhão ao terceiro pavimento do mesmo, a visão do espaço e da obra da artista seria completamente diferente. Poderíamos pensar, inclusive, em um percurso que vai da superfície ao espaço mais profundo: ao interior, à carne. As obras seriam relidas e os próprios espaços do pavilhão, como o corredor, teriam outra interação com o lugar e as próprias obras.



